Reunião

Imagem: Pixabay, cheryholt


Havia um sol diferente toda manhã. Fagner sabia bem disso, sabia que cada rotação era diferente, que cada nova volta trazia um ponto de vista e que nada no universo ficava parado por muito tempo. Ele apenas sabia.
Naquela manhã em especial, acordou sem pretensões, cogitando apenas tomar o seu café, assistir alguma coisa e gastar o resto da tarde entre seus livros, suas redes sociais e seus jogos. Era para ser um dia comum em sua vida, mas eu havia lhe reservado uma surpresa, um pequeno presente que no começo, lhe pareceria uma cilada, porém que se transformaria em algo maior alguns dias mais tarde.
Deu-se que enquanto ele deslizava a tela de seu smartphone sem qualquer intenção de ser simpático, notou um acontecimento na página de alguém que conhecia de poucas vezes em que saíram juntos e de algumas conversas espaçadas que mantinham em um tempo curto, já que não havia interesse de uma parte em outra. Anabela estava grávida.
Ela era uma moça bonita, na casa dos seus vinte e poucos anos e Fagner sabia disso. Namorava um rapaz igualmente formoso, do qual ele era mais próximo e isso o animou a felicitar o casal pela chegada de um presente tão valoroso. Ele não sabia, mas quando o conceberam, envolveram tanto amor em seu coração que coisas simples como essa sempre o deixavam comovido, mesmo que ele as tentasse esconder de uma forma pretensiosa para parecer mais duro do que realmente era. Comentou a publicação com todas as boas intenções que podia reunir e marcou os pais para que eles soubessem que estava feliz por eles.
A resposta veio ácida e contundente como um golpe de navalha, embora a intenção de Anabela não fosse essa e ele sentiu-se desconfortável ao saber que o casal havia encerrado seu relacionamento e agora estavam brigados sem que um quisesse saber do outro, situação agravada pela afirmação da mãe de que o bebê agora era apenas dela.
Vejam só, a vida é estranha, não é? Eu apenas observo e gargalho desses humanos, se ao menos soubessem que tudo faz parte de um plano maior, que todas as decisões tomadas reverberam nas ondas do infinito e retornam, em maior ou menor intensidade, talvez não fossem tão incompreensíveis uns com os outros. Eles resolveram essa situação com uma conversa rápida, onde a acidez da futura mãe, deixou de ser sentida.
— Então, terminamos.
— Como assim? Não estava tudo bem até alguns dias atrás?
— Estava, mas ele surtou e agora eu vou cuidar sozinha do meu filho.
— Poxa que triste, me desculpe, não tive a intenção de ofender, achei que estivesse tudo bem.
— Relaxa, não contei para ninguém, não tinha como você saber.
— Desculpa mesmo.
— Calma, está tudo bem.
Aqui a coisa fica mais interessante. Fagner e Anabela descobriram um apoio estranho em tempos estranhos. Conheceram mais um do outro e até sobre a espiritualidade do primeiro, que estava adormecida já há um bom tempo.
Foi em uma Gira, na casa de Pai Jacó que ele finalmente ouviu meu nome pela primeira vez.
— Vosmecê é filho de Ogum, d’agora em diante peça ajuda a ele.
E nesse momento único, resolvi aparecer para saudar meu filho e fazer com que sua vida tivesse um pouco mais de sentido. Não lhe disse nada, não queria que ele me fizesse perguntas cujas respostas ainda não podia lhe dar e plantei esse desejo em seu coração. De mim, ele sentiu apenas a energia boa e soube que finalmente estava em casa.
As surpresas não acabariam aí, não para ele, nem para ela. Quando soube que o amigo havia ido encontrar suas raízes, encheu-se de felicidade e disse-lhe sem rodeios:
— Quero saber de tudo.
E então ele contou, contou cada detalhe e contou como apareci, o que fiz, relatando todos os sentimentos que havia experimentado. Ela, do outro lado, sorria, sentia-se em casa, mesmo à distância, sentia-se próxima de alguém que deveria ter conhecido antes, mas que sabia, não havia aparecido porque não era hora.
— Também sou filha de Ogum, por isso nos demos tão bem, somos irmãos espirituais.
Axé! Agora sabiam o que havia de comum entre eles.
— Sério? Faz sentido, esse entrosamento todo não podia surgir do nada né.
— É, cara! Tem me feito um bem conversar contigo, que você nem imagina.
— Eu posso dizer o mesmo.
E nesse momento, parei de observá-los, meu trabalho estava feito. Atirei uma única flecha e acertei dois alvos que precisavam de mim. Eu sempre sei o que preciso fazer, sempre sei onde preciso estar, mas naquele momento, fui dar atenção à outras coisas, afinal, mesmo nós, as forças da natureza, sentimos quando uma amizade se torna forte o suficiente para que se possam ajudar em meio à escuridão. Eles estavam em paz e eu sorri mansamente, era bom ver as minhas crianças felizes.
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Fernando Serra

Olá! Sou um aspirante a escritor desde que tinha dez anos. Criei esse blog para colocar as coisas que sentia dentro de mim em um único lugar. Se por acaso você visitar as postagens mais antigas, vai perceber que elas acompanham meu desenvolvimento como escritor e como pessoa. Atualmente, continuo escrevendo, enquanto trabalho como Analista de Suporte e faço um ou outro trabalho artesanal. Se quiser saber mais sobre mim, pode me procurar nos links de contato, terei prazer em conversar!

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