A textura de veludo

 Juno esteve particularmente intrigada com os elogios feitos por Miguel. Arredia que era, jamais aceitara bem os dizeres proferidos pelos inúmeros garotos que apareciam em sua vida.  Todos estavam sempre atraídos por sua beleza, e nunca percebiam que por trás de seu belo rosto, escondia-se uma garota tímida, insegura com seu próprio encanto e amante dos livros e do romance verdadeiro.

Miguel achava-se diferente de todos os outros, e esforçava-se para mostrar à ela as suas verdadeiras intenções. Sempre fora um cara muito solitário e em Juno ele viu pela primeira vez uma esperança de ser compreendido. Não queria deixá-la escapar, mas também não queria prendê-la. Dentro do coração do rapaz, mesclava-se um sentimento de carinho, ansiedade e de desejo. Desejava-a, mas não para sentir todo aquele frisson que ocorria com dois jovens enamorados. Desejava sim, sua companhia, seu sorriso, as palavras que ela poderia dizer e ele poderia entender.

E nesse desejar tão difuso e distinto, Miguel atirou-se à Juno como sua ultima esperança de sentir algo por alguém, pelo mundo em que vivia e pela pessoa que queria ser.
Juno, não sabia como reagir a isso, nem queria reagir à nada. Apenas abrigou-se atrás de suas montanhas (que ela mesma erigiu) e decidiu esperar que Miguel cumprisse sua promessa de ir mais alto que os céus e mais fundo que o oceano para vê-la feliz.

*  *  *

- Oi moço!

O sorriso que eu dei nessa hora, foi tão natural e tão caloroso que pensei que devia estar parecendo algum palhaço desses da boca rasgada. Era a primeira vez que Juno começava um assunto.

- Oi! Como você está? - Disse, agradecendo aos deuses que a conversa não era pessoal, mas sim virtual, caso contrário ela iria perceber na hora o brilho em meus olhos.

- Cansada. Hoje tive várias aulas e o dia foi tão corrido.

- Tadinha. Mas calma, logo acaba.

- Tomara. É o final de tudo agora. Estou meio ansiosa, mas acredito que no fim tudo dará certo!

Juno estava no ultimo semestre de seu curso, e eu entendia que isso estava acabando com o seu tempo, mas não queria ficar sem a sua companhia. Meu ultimo semestre havia sido uma droga e sua aparição foi o ápice de minha permanência na faculdade.

- Quero estar lá para vê-la toda bonita na beca.

- Hahahahaha.

Eu adorava e ao mesmo tempo me roía de curiosidade quando ela usava e abusava dessa mania de sorrir a todo tempo. Se por um lado, seu sorriso era lindo, em outra via, ele escondia tudo que eu queria saber.

- É sério pô.

- Ai Miguel, você tem talento pra me deixar sem jeito.

- Desculpe.

- Tudo bem, é que eu sou complicada mesmo.

- Não se preocupe, damos um jeito de descomplicar.

- Miguel...

Eu adorava deixar ela assim, desarmada. Podia ver suas bochechas lindas ficando coradas do outro lado da conexão.

- Ah, eu fiz uma coisinha pra você.

- Sério? O que é?

- Um poema. Quer ler?

- Hahahaha claro!

Debrucei-me sob o caderno e comecei a digitar:

"Caso estranho

Tenho uma certa simpatia,
Com esse jeito todo carinhoso
Que você tem de existir

A hora, passada contigo
Na qualidade de amigo
É toda alegria
 
E o tempo parece voar
E nessa corrida louca,
De fingir que não te quero,
Prometo nunca ousar,
Beijar tua boca,
Fingir coisa pouca
Ou teu corpo abraçar.

Desespero,
Prometo por impulso,
Aquilo que um dia posso querer,

Mas não me arrependo,
Pois mesmo prometendo
Um dia você pode me ter."

Um silêncio de uns dez minutos, nenhum de nós, diz nada.

- Miguel. Para, fiquei completamente sem jeito agora.

- Ainda bem... Se você dissesse algo simples como "gostei" ou "bonito", eu é quem estaria sem graça.

- Você é bobo.

- Eu tento não ser.

- Moço...

- Toda vez que você diz "Moço" é sinal de que vai embora né?

Eu sabia que Juno estava sorrindo.

- Engraçado, um amigo meu diz a mesma coisa.

- Não sou seu amigo?

- Você me entendeu. De todo modo tenho de ir. Papai chamando pra jantar.

- Tudo bem. Se cuida Juno. Beijo grande.

- Beijo Miguel. Ate mais ver.

Ela deslogou e me deixou com aquele vazio no peito que não significava muito sem a sua presença. 

Eu estava me apegando às suas palavras e não queria perdê-la de maneira alguma, mas sabia dentro de mim, que estava avançando tão rápido quanto ela era capaz de erguer uma geleira entre nós dois, caso achasse que meus sentimentos pudessem transformar-se em dor.
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Fernando Serra

Olá! Sou um aspirante a escritor desde que tinha dez anos. Criei esse blog para colocar as coisas que sentia dentro de mim em um único lugar. Se por acaso você visitar as postagens mais antigas, vai perceber que elas acompanham meu desenvolvimento como escritor e como pessoa. Atualmente, continuo escrevendo, enquanto trabalho como Analista de Suporte e faço um ou outro trabalho artesanal. Se quiser saber mais sobre mim, pode me procurar nos links de contato, terei prazer em conversar!

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