O Canto do Dragão




A chama lançada, o brilho da noite...
Seu corpo em festa, aquece-se ímpar,
Labaredas; o choque; cruel é o açoite,
De sua voz, o doce açoite...

Eu a vi no alto de uma colina, o luar banhando o seu corpo, vento soprando e o som costumeiro das criaturas noturnas a ecoar no ar. Era linda. Maravilhosamente linda.
Seu corpo é esguio, delineado e bem formado, tal e qual as dríades do canto de Deméter, tanto que eu realmente achei que contemplava uma autêntica filha das florestas quando a vi. Minha ilusão, no entanto, se acabou quando percebi que ela estava cuspindo um imenso jato de chamas azuis em direção ao ar. É... Ela "dragonizava".
Não sei dizer quanto tempo fiquei ali sem ser visto. Realmente eu não sei dizer... O certo é que o espetáculo por ela protagonizado era muito belo, e sem dúvida agradaria a qualquer um que o visse, até que ela me viu.

Seu olhar era como o gelo,
O brilho eterno, infinito e forte,
Tanta cor, zelo; Bela sorte
De quem me olhava tão atento.

Ele parecia assustado, mas não sei se era isso que ele sentia, não sei se era medo, se era encantamento, ou se eu o havia hipnotizado sem me dar conta. Eu sempre fazia isto, sempre os hipnotizava sem percebê-los, e parecia naquele momento, que ele era mais um dos que se deixavam levar pela beleza das minhas chamas.
Mas não era.
Ele veio caminhando em minha direção, como mago que era, um dos artífices de Éolo e Poseidon, deixava tudo ao seu redor com sabor de vida, e as plantas desabrochavam suas flores, as criaturas noturnas cessavam sua caçada, as estrelas paravam para olhá-lo e o orvalho brotava dos seus pés.
Eu me senti atraída, atraída por um humano...

Tanto tempo passei a contemplar sua beleza,
Tanta cor presenciei, tanto amor em minha espera,
Passou-se um dia, um ano ou uma era...
Só não sei porque ali fiquei,
Só isso eu não sei.

A filha de Deméter, que agora parecia-se com uma elfa, perdida em meio à toda aquela imensidão, olhou-me com um ar de interrogação e eu apreciei mais de perto. Caminhei até ela e pude sentir que seu corpo vibrava enquanto o meu avançava, talvez por medo, talvez por alegria, ou talvez...
Não, não seria isso, eu não poderia amar uma dragonesa, eu não posso me deixar levar pela influência que sua chama exerce sobre mim, não posso me deixar encantar, preciso resistir, mas sei que não vou conseguir, sei que no final eu serei dela, sei que aquelas chamas irão me tragar para seus braços e eu irei obedecê-la, irei fazer o que minha falsa dríade quer.... Eu sei que serei dela e o olhar que lança em direção a mim denuncia isso.
Estamos face a face.
Sei que por trás desse rosto élfico, encontra-se uma monstruosa criatura, que tem o corpo maior do que qualquer outra coisa que eu possa me transformar, sei que por trás destes olhos amendoados, deste cabelo sedoso e desse corpo maravilhoso, está um ser que pode matar-me com apenas uma patada, que pode desintegrar-me apenas com a própria respiração, mas eu não sinto medo.
Eu penso em medo, eu sei que devia sentir medo, mas não consigo, o olhar dela me passa esta sensação também.

Ele é bobo,
Ele é bobo, disso tenho certeza,
Faz-se menino, quando já é homem,
Faz-se simples enquanto é soberano,
E em seu rosto, magias se escondem...
Ele é bobo, e não espera que eu veja.

O rosto dele encontra o meu, eu sei que posso exterminá-lo, sei que posso acabar com esta cena em poucos segundos, posso matá-lo de infinitos modos, posso paralizá-lo, desintegrá-lo, queimá-lo, posso esmagá-lo, posso seduzi-lo... Nada disso passa por minha cabeça... Intimamente eu sei de tudo, afinal, é de minha natureza ter o conhecimento absoluto do que se passa ao meu redor. É tão chato saber de tudo.
O mais chato é saber tudo sobre ele... Se eu quiser, é só pensar em saber, é só pensar em ler e sua mente mortal se descortinará ante meus poderes. Não quero, ele continuará a ser o meu mistério desta noite, ele continuará a empregar toda a energia do meu momento e me fará sonhar, pelo menos por um minuto, pelo menos enquanto eu estiver na minha forma élfica.
Ele começa a esboçar um movimento, parece que pretende algo, talvez pretenda correr, mas não, ele não ousaria correr de mim.
Ele me abraça.
É quente, eu não esperava que um abraço humano pudesse ser quente, tão quente a ponto de ser sentido por alguém da minha espécie. Raramente sentimos algum calor além do nosso próprio, mas dessa vez eu senti e ele nem tem ligação alguma com o fogo, ele é um mago com um dom glacial, não poderia mexer comigo assim utilizando calor... Talvez isso seja sentimento.
Eu irei agradecê-lo.

Ela gosta de abraços...
Me encaixei bem em seus braços?
Que fiz eu para merecer o que vejo?
Esse corpo imenso, agora é real,
Deixou de ser elfa,
Seu poder é descomunal...

Ela se afasta de mim e assume sua forma original novamente, parece que vai fazer algo, algo que só consegue realizar em sua forma de nascença e eu aguardo, qualquer coisa, poderei me proteger, afinal, tenho meus meios, sou um mago, sou um artífice de Éolo e um seguidor de Poseidon.
Suas asas batem, seu rabo começa a balançar e ela levanta o pescoço, algo belo está para acontecer e presenciarei isto.

Quando ouvir durante a noite, minha voz,
Faça-se meu durante , antes e após,
E se o corpo meu te assustar,
Não tema, irei me transformar...
Venha durma, e faça o que quiser,
Deixarei-te tocar onde calor houver,
Serei tua e serás meu...
É magnífico o efeito que meu canto produz em quem o observa. Se minhas chamas os deixam hipnotizados, o meu canto então os deixa maravilhados e eles fazem tudo o que quero. Ele será meu e isso irá acontecer rápido, tão rápido que nem haverá graça quando eu o dominar, no entanto, sei que gostarei de tê-lo, sei que gostarei de acrescentar esse homem à minha coleção.

O momento é único, sensação sem par,
Quero-te tanto, quero-te minha sindar,
Deixa-me ser teu guia, tua emoção,
Pela luz irei te levar,
E no espaço, entoarei tua canção...

Eu olho para ela, não sei dizer mais o que farei a seguir, não consigo imaginar o que serei, o que acontecerá. Apenas sei que me perco em meio ao seu canto e deixo todas as sensações me levarem ao êxtase, ao possível e impossível em sua presença.
Seu corpo assume a forma élfica novamente, penso em tocá-la, porém, agora ela é uma elfa em chamas, e está totalmente protegida contra minhas investidas.
Sempre me chamaram de louco.
Eu corro e a abraço.
São dois minutos até que as chamas quebrem a minha proteção arcana, a proteção que construí com meu próprio espírito, serão dois minutos... Dois minutos e me perderei para sempre em meio às labaredas desse ser maravilhoso que tanto me encanta.

Ele é louco, louco eu sei,
Tanto faz, tanto é...
Quero-te bobo, serás meu rei,
Serás meu, serás meu...
E isso é só o que eu sei,

Ele é louco, simplesmente veio e me abraçou!
Conseguiu resistir às minhas chamas e está aqui, em meio ao meu corpo, perdendo o próprio espírito, para me abraçar.
Será que ele é digno? Será que ele é capaz de resistir à minha sedução flamejante? Se o for, será meu, eternamente.
Esperarei os dois minutos, esperarei o tempo necessário para um espírito humano se consumir em meio às chamas etéreas, verei se ele realmente se perderá. Verei se ele realmente quer me ter e ser meu. Será que a coragem de um simples mago humano é suficiente para conquistar o coração de uma dragonesa? Será que isso é apenas loucura?

Ela não conhece as dimensões,
O coração também não é sabedor,
São inúmeras as coisas realizadas,
Milhares de atos, únicas razões,
As que se tem em meio ao amor...

Sei que morrerei em breve... Tenho ainda mais vinte segundos, vinte segundos antes de perder todo o meu espírito para as chamas de minha amada draconiana...
É bom amar.
É bom morrer amando.
Morrerei mirando esses belos olhos, os olhos amendoados de elfa flamejante, que me seduziram e que agora me sugam a vida. Uma draconiana em forma de elfa. Uma elfa que drena a vida.
Tudo é um impasse.
Tudo é tão ridículo.
Eu respiro minha última lufada de ar, e caio. Minha última visão são seus belos olhos amendoados que parecem compreender todo o sentimento que tentei exprimir ali. Ela nada diz, sinto que não há mesmo nada a ser dito, seus olhos já me bastam.

Ele é bravo,
Bravo é o seu espírito,
Seu corpo está queimado,
Seu espírito está descarnado,
Mas eu posso trazê-lo,
Eu posso fazê-lo ter sentido.

Ele resistiu, sim ele resistiu.
Demorou-se dois minutos, demorou-se o que precisava demorar.
Ele nem me conhece, ele nunca viu alguém parecido comigo e, no entanto, soube me conquistar. Ele sabe o que precisa para conquistar um dragão, ele sabe o que precisa para conquistar o respeito e a admiração de alguém da minha espécie.
Ele precisou morrer.
Todos precisam morrer um dia.
Todos precisam, mas os que morrem na presença de um dragão, num embate honrado com um de nós, não sofrem com a morte e tornam-se merecedores do maior dom que um dragão pode oferecer: A ressurreição.
No meu caso ela é um beijo.
Um sutil e suave beijo, um beijo de dragonesa.

Eu não consigo entender,
Ninguém pode me explicar,
Estava às portas do descanso,
Minhas entranhas já não sofriam com o descaso,
O vento era morno, manso...
Mas algo me trouxe do ocaso.

Eu desperto e novamente contemplo os mesmos olhos que vi antes de morrer pela primeira vez.
Me descubro renovado e com energias que nunca experimentei antes a percorrer pelo meu corpo, ela me observa em sua forma de elfa e sorri. Eu a beijo novamente e nos abraçamos. Ela começa a se despir, tirando a túnica verde-folha que a veste lentamente, é uma maravilha todo esse corpo, todas essas curvas, me sinto como se a própria Afrodite estivesse em minha frente. 
– Fernando, já está na hora de ir trabalhar, você não vai levantar não menino?
Eu me rendo e levanto da cama, minha mãe está chamando.
Caralho, eu realmente preciso parar de sonhar! 

Sonhe garoto...
Sonhe comigo, sonhos marotos,
Deixe-me fazer-te homem, sei o que quer,
Deixe-me fazer-te homem,
Sou perfeita, sou mulher.

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Fernando Serra

Olá! Sou um aspirante a escritor desde que tinha dez anos. Criei esse blog para colocar as coisas que sentia dentro de mim em um único lugar. Se por acaso você visitar as postagens mais antigas, vai perceber que elas acompanham meu desenvolvimento como escritor e como pessoa. Atualmente, continuo escrevendo, enquanto trabalho como Analista de Suporte e faço um ou outro trabalho artesanal. Se quiser saber mais sobre mim, pode me procurar nos links de contato, terei prazer em conversar!

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5 comentaram:

Manuh disse...

Uaaaaaaaaaaaaaaaauuu!
*o*
Nemseimaisoquedizer.com!

Relativizando Absurdos disse...

hahahaha o final é realmente : DE VOLTA AO MUNDO REAL, PAFFF!!

Nossa, adorei ..me senti nesses contos meio medievais sabe? Cheio de criaturas mágicas, mas com o mesmo sentimento que une todos o AMOR!!

Parabéns!!! Ficou muito bom

Beijinhos

Por Samara Correia

SAM disse...

Huauuuuuuuuuuuuuuuuu! Li em transe! Pregada neste sonho fantástico. A narrativa seduz o leitor! Plasmei imagens , cores e fiquei tão absorvida por elas que agora percebo que cai no encanto do " O Canto do Dragão"!!! Adorei!


Beijos!

Débora Val disse...

"Ela não conhece as dimensões,
O coração também não é sabedor,
São inúmeras as coisas realizadas,
Milhares de atos, únicas razões,
As que se tem em meio ao amor..."

Excelente! Para mim, foi das melhores coisas que já li no teu blogue. :)

Anônimo disse...

Você finalmente conseguiu. Eu morri. Morri pra você, pro mundo, pra mim.
Eu pensei... Já não sei. Eu teria feito qualquer coisa pra... Para quê?
Nada. Não mais, nunca mais... Eu estou findando. Não venha. Não venha perder o seu precioso tempo, eu lhe rogo, não me destrua vez mais. Deixe-me em paz, deixe-me só. Para sempre. Eu preciso da eternidade, agora eu sei. Por que eu me atirei 6 vezes para tê-lo em igualdade, e eu compreendo agora, eu morri em vão. Eu morri uma última vez. Eu jamais o perdoarei. Acabou. Por Deus, eu não o quero mais, eu quero que seja feliz com quem quiser, mas deixe-me só. Liberte-me.