
Estou sentado na cama, olho para ela, seu corpo nu se confunde com os lençóis e eu me encontro ali naquelas tetas, naquelas nádegas maravilhosas. Os cabelos sedosos e perfumados me seduzem de uma forma que não sei explicar. Meu Deus! Que Mulher! Consegue permanecer assim mesmo após ter me dado tanto trabalho na cama, ela é perfeita e eu tenho tudo que quero!
Erro cruel.
Eu nunca tive tudo que quis.
Acontece que as vezes, eu me deixo encantar com alguma coisa, me deixo levar pelo entusiasmo de um momento, e vivo como se só aquilo me importasse, como se só aquilo fosse realmente o ápice, mas o que me dói na realidade, não é essa capacidade de me apegar e me desfazer tão rápido das minhas relações, o que me dói é ter tido tantas relações quanto possível, e nunca conseguir me encontrar em nenhuma delas.
Essa garota de agora, a que está comigo na cama enquanto escrevo isto, é perfeita, me faz sonhar com tudo o que é possível para um casal, e eu fico maravilhado com sua capacidade de dizer que me ama, sem nunca ter me visto uma vez antes. Eu a quero, quero transformá-la em meu amor, quero dizer que a amo também, mas eu não consigo, eu sou um grande filho da puta, eu não consigo articular as palavras, e parece que elas engasgam em meu peito, eu me sinto perdido e paro de falar por um tempo, ela me olha, sorri e começa a me acariciar. Eu me levanto, pau em riste, e fazemos amor mais uma vez. Mais uma vez o sexo é maravilhoso, é intrigante e excepcional, tudo tão perfeito, e a garota tem só 19 anos!
19 anos! Dezenove anos! Como pode? Essa garota poderia ser uma puta de esquina não? Caralho, eu não queria pensar nisso, e me sinto um desgraçado por pensar que ela poderia ter dado o que eu acabei de receber a outro cara. Ela poderia ser uma ninfomaníaca, ou quem sabe, apenas uma garota que leu os contos de Sade. São inúmeras possibilidades.
Eu tenho medo.
É um fato, eu tenho medo de perdê-la. Eu descobri isso quando após ter o seu terceiro conjunto de orgasmos, ela levantou-se para tomar banho. Por Deus! Como poderia ter me esquecido disso? É claro que ela vai precisar tomar banho, é claro que ela vai precisar sair deste quarto de motel, é claro que ela vai querer voltar à sua própria vida. E eu vou ter que voltar à minha, eu vou ter que pegar o ônibus todo dia, vou ter que ver o mesmo motorista, vou ter que viajar em pé por uma hora ou duas, e depois quem sabe, ainda precisar pegar o metrô. Ela vai voltar a viver alheia à sociedade, vai ficar enfurnada naquela lojinha de lãs e linhas de costura, e eu vou voltar àquela redação maldita, aquele lugar apertado onde ganho meu mísero salário, que agora se esvai neste quarto de motel onde as horas são cobradas a peso de ouro. Raios! Porque eu fui inventar de impressionar a guria? Que diabos, eu sou um grande filho da puta!
Coragem.
Finalmente eu tomo coragem para dizer o que meu âmago rejeita, finalmente eu tomo coragem para enfrentá-la e dizer as tais duas palavras. Elas ficam na minha garganta perdidas por alguns segundos, eu estou aflito, suor escorrendo pelo rosto, minha boca salivando, mas abro a mandíbula e esboço o começo do fim de minha vida de solteiro:
- E... E... - De repente eu me descobri gago! - Eu... Eu te... Eu te amo! - E digo isso suado, com a boca cheia de saliva o corpo tremendo, e tudo se passando em flashes, e pior ainda... Antes de dizer duas palavras, digo-lhe três!
Ela me olha, eu fico pasmo com cara de tonto, querendo saber como consegui proferir tais palavras, e percebo que ela sorriu. Sim, ela sorriu... Olhou-me com a carinha de anjo que tem e riu um riso calmo, um riso de menina mimada, que mal sabe o que quer.
- Eu poderia dizer infinitas coisas agora rapaz. Poderia dizer que te amo, poderia pular em teus braços e fazer amor novamente, poderia simplesmente me abster de falar, ou ficar te olhando e sorrindo como estou agora. Mas o que você prefere que eu diga? O que sua alma espera? - A sua serenidade ao falar é quase tão bela quanto seu rosto e seus belos olhos castanhos.
Eu a olho intrigado, essa garota realmente é mais inteligente do que as convencionais... Ela satisfaz o meu intelecto, porém eu não satisfaço o dela, eu sou um idiota, e eu a amo. Só existe uma coisa pior que odiar uma mulher, e é amar uma. Raios! Como posso ter me perdido assim? Eu havia jurado uma vez nunca dizer nada a alguém que não fosse verdade, no entanto, eu disse uma verdade a ela, que nem eu sabia se era verdade para mim. E agora? Como eu encararia aqueles belos olhos quando os encontrasse numa possível próxima vez? Droga! Eu sou um grande filho da puta!
Eu fiquei pensando por quanto tempo? Não sei, mas ela já está vestida, e parece que me olha com uma cara de pena. Em meu cérebro as suas últimas palavras reverberam: “O que sua alma espera?”... “O que sua alma espera?”. Eu sou um idiota mesmo.
- Eu também te amo seu bobo!
- Hã?
A confusão de pensamentos foi tão grande que eu fiquei sem ação por mais uns minutos até conseguir retomar a fala:
- Você me ama? Você me ama!?
- Sim seu bobo! Te amo e não sei o seu nome! Te amo e não sei o que você faz... Te amo e não sei a sua idade, no entanto você sabe a minha não é? Porque não partilha os teus segredos comigo?
- Achei que você não se interessasse por mim... Achei que você estivesse apenas se divertindo...
Ela me olha e esboça um sorriso apaixonado.
- Meu nome é Tobias, tenho 26 anos, sou Jornalista...
- Prazer Tobias, sou Aline, tenho 19 anos, curso Psicologia, e trabalho naquela lojinha de lãs e linhas de costura no centro da cidade.
Mais um sorriso apaixonado, só que desta vez ele parte de mim. Eu a olho com minha cara de dois de paus, e a beijo lascivamente. Saímos dali e vamos para minha casa. Mais uma noite de amor.
* * *
Dois anos se passaram desde aquele dia, estou casado e feliz, nada me falta, pelo menos em termos. Eu nunca tive tudo que quis mesmo.
Chego na redação e penso nela.
Ela estava em nossa casa com Clarissa, nossa filhinha... A esta hora, certamente deveria estar se levantando, preparando o leite, lavando a louça... Ah meu Deus! Como eu a amo...
Mas ainda me falta algo. Não sei o que, mas me falta algo.
Pego o notebook, começo a digitar um texto:
“Melancolia.
O que pode-se dizer à respeito disto? Como um homem que tem tudo pode ainda querer mais amor? Como alguém que está casado por dois anos, deixa o amor esfriar assim?
Melancolia, eu ainda preciso achar alguém...”
Eu desligo o notebook, e saio... Tem alguém me esperando na próxima lojinha de lãs e linhas de costura que eu encontrar pelo caminho.
É... Eu sou um grande filho da puta.
Imagem: O Rosto da Melancolia, Ricardo Fernando Silva, 2006, Site Olhares